João tem um atacado de doces, o "Mundo dos Doces", e resolveu investir na elaboração de uma marca, afinal havia assistido uma palestra na qual foi dito que uma empresa que investe em Identidade Visual tem boas chances de aumentar seu faturamento. Fez um orçamento com designers, mas ficou louco com o preço, achando que era um absurdo cobrar aquilo por um desenho. Então João pediu ao seu sobrinho que desenha muito bem para criar uma "logomarca", afinal, era apenas um desenho.
Uma semana depois vem o rapaz, com uma folha desenhada com um lindo desenho de uma fada loira, com o vestido todo detalhado em renda. Ao redor da linda fada, centenas de doces dos mais variados tipos; e embaixo de tudo estava escrito "Mundo dos Doces", com um tipo de letra todo enfeitado, e com todas as cores do arco-íris presentes. Realmente, era um lindo desenho, e João adotou a idéia na hora. Deu R$50 ao adolescente (que ficou feliz da vida) e então pensou: "Agora sim, tenho uma logomarca". Ligou o computador, escaneou a folha e enviou sua "logomarca" para o e-mail de vários amigos, que o responderam, falando que estava lindo. João, empolgado, foi até um conhecido que fazia letreiros, e encomendou um para a fachada de sua loja.
Dias depois, foi pegar o letreiro. Bom, não estava igual ao desenho: a fada estava um pouquinho mais gorda, os doces estavam meio irregulares, as cores não estavam mais iguais. Perguntando ao letreirista o motivo, ele foi direto:
-Bem, pra começar o arquivo do computador não estava no formato correto, então tive que fazer do modo antigo, pintando tudo a mão. Também por esse motivo as cores e formas ficaram um pouco diferentes, afinal não sou desenhista. Mas até que ficou bom, não acha?
João balançou a cabeça dizendo que sim, mesmo sabendo que estava um pouco inferior ao original. Pegou a carteira e quando foi pagar, recebeu outra surpresa:
-Ah, eu esqueci de falar para o senhor: como eu tive que fazer tudo a mão, eu vou ter que cobrar o dobro do preço, pois usei muitas cores de tinta e um material especial pra suportar tanta tinta.
João ficou meio irritado, mas acabou pagando.
No dia seguinte instalou o letreiro na frente da loja e convidou os amigos para a "inauguração". Novamente, foi a mesma chuva de elogios, falando que tudo era lindo e colorido. Novamente motivado, João enviou o mesmo arquivo escaneado para uma gráfica para fazer um cartão de visitas, que logo ficou pronto. Tudo bem, tinha que chegar com a cara bem de perto para ver que o desenho era de uma fada. Também não dava pra perceber que as coisas ao redor da fada eram doces, e o tipo de letra de "Mundo dos Doces" era diferente, mas até que o cartão (para João) ficou bem bonito e chamativo, todo colorido, igual um arco-íris.
Nos meses seguintes, João reparou que suas vendas não haviam crescido, pelo contrário, tinha até perdido alguns clientes. Intrigado, foi até esses clientes perguntar por que não compravam mais com ele. Um deles, um empresário bem sucedido, foi franco:
-Olha, não me leva a mal, mas a minha empresa tem reputação no mercado, e eu não posso me dar ao luxo de jogar a imagem dela fora comprando de uma empresa como a sua. Olha seu letreiro, parece que é uma loja para crianças. Doces são para crianças, sim, mas seu público-alvo não são crianças, são empresários que compram grandes quantidades para então revender para as crianças. E quanto ao seu cartão de visitas? Eu só soube que se tratava da sua empresa por causa do seu nome. Do contrário, eu o veria e jogaria-o fora, pois não conseguiria entender qual era o negócio de sua empresa vendo aquela moça ao redor de pedras. Ah sim, só depois fui descobrir que as "pedras" na verdade eram doces.
Nessa hora, João percebeu o erro que havia cometido. O pouco que economizou com a contratação de um designer foi gasto com custos extras na fabricação de materiais de divulgação inadequados, que acabaram comprometendo também a imagem da empresa na mente do seu público-alvo. Infelizmente João tinha um desenho, e não uma marca.
Esse é um fato que ocorre com frequência. As pessoas economizam por um lado, mas não alcançam seu objetivo final e algumas vezes acabam tendo prejuízo por essa falsa economia. Este texto não tem o intuito de desmerecer a profissão de ilustrador/desenhista, longe disso, mas cada um com sua especialidade: padeiro faz pão, pedreiro faz casas, ilustrador faz desenhos, designer gráfico faz marcas. E para se criar uma marca, mais importante que saber desenhar, é preciso saber analisar o mercado. Sintetizando: se você precisa de uma marca, procure um designer. Ou você procura um veterinário quando está doente, só porque é mais barato?
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